A diplomacia da conveniência

Os paraguaios gostam de fazer piadas com seus vizinhos de Cone Sul. Dizem ser “mais fácil entender um brasileiro em português que um argentino em espanhol”. A brincadeira expõe a histórica rivalidade entre Paraguai e Argentina e também é uma prova da relação de boa vontade com os brasileiros, apesar da mágoa histórica deixada pela Guerra do Paraguai, no século XIX. Na semana passada, pelo menos na elite do país, pouco restou da boa vontade. Ela foi abandonada assim que o governo de Dilma Rousseff protestou contra a deposição do presidente Fernando Lugo. O português do Brasil deixou de ser compreendido. (Fonte: Revista Epoca – O Globo – 06/07/2012)

Essa sensação está disseminada, sobretudo, em meio àqueles que produzem e ajudam a construir a economia paraguaia, entre eles os agricultores brasileiros chamados de brasiguaios. Eles não queriam mais o esquerdista Lugo no poder e ficaram irritados com a decisão de Brasília de ameaçar o Paraguai com sanções por causa da posse do novo presidente, o liberal Federico Franco. Que tal atitude viesse da Argentina, da Bolívia e do Equador, cujos governos se alinham com presidente da Venezuela, Chávez, já era esperado. A adesão do Brasil não caiu bem. O país também avalizou a resolução tomada, na semana passada, na reunião do Mercosul: Paraguai foi suspenso do bloco econômico até próximas eleições, previstas para 2013. Na mesma reunião, definiu-se a aprovação da Venezuela como membro pleno em 31 de julho deste ano, posição que contraria frontalmente os interesses paraguaios.

O argumento do respeito à soberania de cada país era usado pelo Itamaraty para não tomar parte no debate em torno da reforma agrária do Paraguai, queda de braço entre sem-terra e agricultores que se agravou durante o governo Lugo. Desde o ano passado, o embaixador brasileiro em Assunção, Eduardo dos Santos, era cobrado por brasiguaios devido constantes invasões de suas propriedades. “A resposta era que se tratava de um problema interno do país, que o governo brasileiro não poderia interferir”, afirma o paraguaio José Costas, advogado e porta-voz de Tranquilo Favero, um catarinense que cruzou a fronteira nos anos 1970. Favero fez fortuna e se tornou o maior proprietário de terra do país, com pelo menos 18.000 hectares só na região leste do Paraguai. Suas terras são constantemente ocupadas por camponeses sem terra. José Costas diz o que pensa a maioria dos paraguaios contrários a Fernando Lugo: “Agora que temos presidente que não responde a um bloco socialista no continente, Dilma e o PT tratam de interferir em nossa vida política. Se não se importaram com a gente antes, que continuem da mesma maneira”. O princípio da neutralidade brasileira, exercido nas relações com regimes autoritários, como Irã e Guiné-Equatorial, fora questionado em outra deposição de governante de esquerda latino-americano. Em 2009, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, voltou escondido ao país e refugiou-se na Embaixada do Brasil. Lá ficou por 4 longos meses, até se exilar na República Dominicana. Era o auge da seletiva “diplomacia presidencial” de Luiz Inácio Lula da Silva, que favorecia os aliados Chávez, Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). A ordem democrática fora rompida em Honduras, fato que merecia condenação. Mas a acolhida brasileira a Zelaya e a prorrogação do confronto diplomático entre o Brasil e o novo governo hondurenho, após a realização de eleições, foram fruto da ideologia que contamina ações externas de Brasília. Esse pensamento impediu, até hoje, que o Brasil fizesse qualquer crítica ao autoritarismo do eterno presidente Chávez. Pior ainda quando essa ideologia fere os próprios interesses do Brasil. O boliviano Evo apropriou-se de refinarias brasileiras em 2006, ação que recebeu do governo Lula apenas protestos comedidos e a mão estendida ao diálogo.

Numa nota acertada entre Dilma Rousseff e o chanceler Antonio Patriota, o Itamaraty evitou falar em “golpe” contra Lugo como fizeram Argentina e Venezuela. Chamou “rito sumário” a decisão do Congresso paraguaio, pois Lugo teve apenas 2 horas para se defender acusações que motivaram o pedido de impeachment (o próprio Federico Franco reconheceu que o processo foi “um pouco rápido”). O que irritou mesmo os paraguaios foi a suspensão do país das reuniões do Mercosul e da União das Nações Sul-Americanas. Argentina, Venezuela, Equador retiraram embaixadores de Assunção. O Brasil convocou Eduardo dos Santos para consulta, reprimenda mais leve, e não adotará sanções econômicas, enquanto Chávez interrompeu o envio de petróleo ao Paraguai. Segundo um assessor de Franco, ainda assim o Brasil deveria “calibrar” melhor suas posições diplomáticas na América do Sul devido a seu tamanho, sob o risco de sufocar os parceiros menores. O diplomata Sérgio Amaral, ex-porta-voz do governo Fernando Henrique Cardoso, concorda com a avaliação de que a democracia foi desrespeitada no Paraguai. O problema, diz ele, é o uso de diferentes critérios por Brasília com diferentes nações. “Se você rejeita o simulacro do impeachment, você tem de rejeitar o simulacro de democracia, que é o caso da Venezuela. Os dois casos têm ponto em comum”. “O que vale mais: a forma e a aparência ou o conteúdo? Nós teremos eleições na Venezuela neste ano, e temos boas razões para acreditar aparências democráticas podem ser respeitadas, mas o conteúdo não”. Mantida sua posição atual, o governo brasileiro poderá deixar Franco na geladeira até fim de seu mandato, agosto de 2013, e só retomar pleno diálogo com um novo presidente. Dado que paraguaios não queriam mais Lugo, sua saída seguiu os ritos legais e a reação foi mais externa que interna, é provável que o próximo presidente tenha feições liberais. Se assim for, demonstrar boa vontade com um governante cercado de regimes de orientação política contrária será um bom sinal de maturidade brasileira.

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Consultor Internacional

2 Responses to A diplomacia da conveniência

  1. O professor Celso Lafer é uma pessoa suave. Quando um funcionário da imigração dos EUA pediu que ele tirasse o sapato para entrar no país depois dos ataques do 11 de Setembro, ele candidamente se submeteu. Petistas de plantão viram na atitude do então chanceler de FHC uma afronta à soberania nacional e usaram o episódio furiosamente para destratar Lafer e seu governo. Anos depois, o professor Celso dá o troco com a suavidade de um artigo na página três desta Folha apontando claramente que o Brasil cometeu ilegalidade ao patrocinar a incorporação venezuelana ao Mercosul, à revelia de um de seus membros, o Paraguai, suspenso pouco antes por um incidente político interno que ficou pequeno diante das consequências regionais. O que de fato aconteceu na reunião de cúpula do Mercosul segue um mistério que sintomaticamente ninguém do Itamaraty ou do Planalto se dispôs a comentar. O único que falou foi o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, o que não é um bom sinal. Para compor esse enigma internacional, a estranha e repentina renúncia de Samuel Pinheiro Guimarães, ex-número dois do Itamaraty, ao principal posto do bloco, o de Alto Representante do Mercosul, na véspera da cúpula. Outra história para os restos a contar. O pouco que sabemos, sabemos dos uruguaios. Foram eles que tiraram Dilma do armário ao dizer que a presidente brasileira pediu uma conversa particular com os colegas Cristina Kirchner (Argentina) e José Mujica (Uruguai). Na conversa, Dilma, com Cristina de dupla, enquadrou o velho tupamaro uruguaio. Só sobrou a Mujica reclamar depois da entrada ilegal da Venezuela no Mercosul e lembrar que até o dia 31 de julho a medida pode ser suspensa, uma prerrogativa que revela o gesto envergonhado e a sensação de malfeito. O Mercosul surgiu como um bloco econômico para incrementar as trocas comerciais da região e a partir daí comandar a integração regional. O bloco estagnou numa união aduaneira porosa, cheia de exceções tarifárias para ajudar os argentinos. Os dois países pequenos do bloco, Uruguai e Paraguai, sempre viveram oprimidos entre os grandalhões perigosos Argentina e Brasil. Dilma e Cristina formam seu pior pesadelo, abrindo as portas para Chávez e o bolivarianismo e forçando os dois pequenos a olharem ainda mais para outras alianças fora do Mercosul. O Brasil vai melhor que Argentina e Venezuela porque é diferente de Argentina e Venezuela. Mas o incidente paraguaio seguido pelo golpe brasileiro no Mercosul mostra que sob Dilma o Brasil parece alinhado e até a reboque de Caracas e Buenos Aires. No mesmo dia em que o ministro Guido Mantega discutiu publicamente com o presidente do Itaú, o governo de Cristina Kirchner anuciava política de forçar os bancos argentinos a emprestarem mais às empresas. Quanto mais parecidos estivermos com Kirchner e Chávez, pior para o Brasil. Chávez é um bom amigo dos petistas, não resta dúvida. O marqueteiro do partido e da presidente, João Santana, coordena a campanha presidencial do caudilho venezuelano, que enfrenta um câncer misterioso e cambaleia triunfalmente para um terceiro mandato, ficando no poder (e no Mercosul) até 2019. Ter Chávez dividindo o poder do Mercosul por tanto tempo e usando a legitimidade que ali resta para se promover, atacar EUA e Europa e defender China e Irã não parece alvissareiro. Como não é a aproximação do bloco com Pequim em detrimento dos EUA.


    Teremos saudades dos tempos em que o Mercosul era só um fracasso regional. Ele está se tornando um problema regional.

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergiomalbergier/1115366-o-golpe-brasileiro-no-mercosul.shtml

  2. (…..) The deposition of the incumbent president was unpopular among Paraguayans, even among those who did not support Lugo. It will further intensify citizens’ disdain for members of congress, and will heighten political instability in the run-up to the April 2013 elections. The prospects of effective governance may well deteriorate further as the resurgent Colorado party reacts strongly against likely efforts by the Franco administration to use state funds now at its disposal to boost the electoral prospects of the divided Liberals. The new government will also face a heavy task in repairing damaged relations with governments throughout Latin America, and across the ideological spectrum. Asunción has seen only muted street demonstrations in support of Lugo, but there have been large protests in many rural areas where small farmers are well organised (though these are mostly unreported in the national press). More worryingly, an EPP platoon – departing from the organisation’s previous focus on kidnapping landowners for ransom – targeted a Brazilian company engaged in illegal logging on 28 June at Azote’y, in the department of Concepción. The assailants burned transport equipment, and then for the first time separated a Brazilian labourer from his Paraguayan colleagues and killed him. This heightens the fear that in current conditions the widespread xenophobia towards brasiguayos in rural areas may increase. Lugo himself at first accepted the congress’s decision, but has since called on citizens to oppose the new government, saying: “The democratic process in this country is broken.” Indeed, the wide perception that his sudden ousting was undemocratic will (his lacklustre record in office notwithstanding) help restore his tarnished political image and may enable him to stand for a senate seat in 2013 as head of the left-wing Frente Guasu alliance. Perhaps in the interim he will learn some lessons about political strategy and personal morality. After his fall, the task of reforming Paraguay’s political and economic order is more essential than ever.

    http://www.opendemocracy.net/andrew-nickson/paraguays-presidential-coup-inside-story

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