“O Eurocentrismo morreu”, diz historiador Robert Darnton

O historiador americano Darnton está elétrico. Seu trabalho atual, dirigir a maior rede de bibliotecas universitárias do planeta, Harvard, passa por uma revolução diante da missão de criar uma megacoleção de livros e documentos on-line sediada nos EUA e aberta ao mundo. “Aqui, temos 17 milhões de volumes e 350 línguas. É algo não somente para os estudantes e professores da universidade, mas algo que devemos ao país e como um depósito internacional de conhecimento”. “Por isso minha maior missão é abri-la e dividi-la com o mundo”. Como estudioso da Revolução Francesa e da cultura Europa, esse autor prolífico de 73 anos assiste aos desdobramentos da crise na União Europeia sobre a produção cultural do continente, na qual ele vê exaustão. No Oriente Médio, observa a Primavera Árabe, passar do “fervor utópico” à consolidação e à construção. “É menos dramático, mas é promissor”. Antes de embarcar para o Brasil para um congresso cultural nesta semana, Darnton conversou com a Folha por telefone sobre livros, crises e leis autorais. A crise na Europa parece ter fermentado uma clara sensação de insatisfação política, derrubou governos, e, aparentemente, afeta a psique europeia. Como o sr. avalia o momento histórico no continente e quais seriam os paralelos? Acho justo dizer que há uma crise de confiança na Europa. Claro, há uma base econômica, com o desemprego em alta e bancos quebrando ou com risco de quebrar. Mas a questão vai além: há dúvidas sobre futuro da Europa em si. Há sinais de descontentamento nas pequenas comunidades, imagine a fragmentação espiritual no norte da Itália, no leste da Espanha ou mesmo nos Bálcãs, com unidades políticas fundamentais, sejam nacionais ou europeias, questionadas. É uma balcanização fora dos Bálcãs. As pessoas estão refletindo sobre a Europa e seu lugar no mundo, e, ao fazer isso, pensam em países como o Brasil, a Turquia, a China e as novas potências emergindo. Quando eu vou à Europa, noto uma sensação de exaustão, estar ficando para trás na corrida. No norte Europa, as coisas vão bem. Mas é claro que o ressentimento dos gregos em relação aos alemães e dos alemães em relação aos gregos mostra que algo está fora de sincronia. Portanto é justo dizer que os europeus estão questionando a Europa. A percepção de importância europeia persiste, mas a auto-estima parece afetada. Faz sentido? Concordo, é uma sensação de ter sido ultrapassado e não estar mais no “fast track” da história. E não só na economia, quando eles veem a qualidade da literatura, do cinema, da música que vêm da América Latina, aparece essa exaustão, e a vitalidade desse outro lado do mundo os ofusca. Há lados positivos, há um centro de estudos brasileiros em Paris florescendo, por exemplo. Mas o eurocentrismo morreu. A noção de que Europa dita o ritmo na vida cultural não é mais verdade. Não que a cultura europeia tenha se esgotado, mas hoje os americanos, tanto os norte-americanos quanto latinos, são mais centrais para a cultura. Ainda há literatura europeia florescendo. Verdade, há coisas boas. Há essa frase do filósofo alemão do séc.18, Hegel, “a coruja de Minerva abre suas asas após o anoitecer”, que quer dizer que a cultura floresce quando países parecem estar em declínio. As pessoas que conheço lá, jornalistas, críticos literários, seguem produzindo. Mas quando vou ao México ou ao Brasil, sinto uma vitalidade que não sinto mais em Paris ou Londres, há Berlim, claro, que é uma cidade vibrante. A exaustão, além da economia, vem de onde? É difícil apontar, mas acho que um dos pontos de dificuldade é a educação superior. As universidades estão sofrendo na Europa inteira (…..)

Link: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1096772-o-eurocentrismo-morreu-diz-historiador-robert-darnton.shtml

Acerca de ignaciocovelo
Consultor Internacional

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