Aposta do bilhão na nova África

Passou quase despercebido no grande noticiário, um tanto ofuscado pela presença física do ex-presidente Lula, o lançamento de um fundo de investimentos privados brasileiros dirigido para a África, durante seminário promovido pelo BNDES sobre as oportunidades de negócios associadas. Com capital inicial de US$ 1 bilhão, será o maior pool do mundo destinado a um continente colocado entre as prioridades de política externa nos últimos dois governos. A presidente Dilma decidiu manter as visitas anuais do antecessor a solo africano, gesto reforçado pelas viagens do chanceler Antonio Patriota, a última delas, no fim de abril, com escalas na Etiópia, sede da União Africana, além da Tunísia e da Mauritânia. (Fonte: Correio Braziliense – 05/05/2012)

Alguns números dão a medida do alcance estratégico dessa tacada: 300 milhões de consumidores que integram uma emergente classe média africana, ávida por produtos e serviços até há pouco inatingíveis. Mercado que floresce impulsionado, pela maturação do processo de emancipação empreendido nas décadas de 1960 e 1970: a América Latina atravessa o ciclo dos bicentenários de independência, as nações decanas da África Subsaariana aproximam-se do primeiro meio século de existência. Mais recentemente, a bonança petroleira tem premiado alguns países, como Angola, que consolidaram algum tipo de estabilidade política. Moçambique, outra ex-colônia portuguesa, desponta entre as economias que colecionam longas séries de crescimento anual no patamar de dois dígitos. Angola, por sinal, já conta com uma linha de crédito comercial pelo BNDES, com valor ampliado na última semana para US$ 2 bilhões. Como tem se tornado a regra, no tabuleiro global da geopolítica, foram os chineses que enxergaram primeiro a vastidão das oportunidades abertas no continente, por tantos anos tratado como pária nas capitais do capital. O galo cantou para americanos e europeus antes da crise de 2008, que esgotou as capacidades de investimento dos grandes centros financeiros. No início daquele ano, quando a campanha pela Casa Branca começava a tomar contornos mais claros, o prestigiado Conselho de Relações Exteriores publicou o relatório final de uma nutrida força-tarefa multidisciplinar formada para formular sugestões ao próximo presidente dos EUA sobre África. De início, o extenso documento recomendava uma mudança qualitativa: não mais olhar para o continente como destinatário de ajuda, mas como terreno de oportunidades para os negócios. O alerta sobre os chineses foi soado, mas os estudiosos chamaram a atenção para concorrentes menos habituais: os capitais brasileiros e chineses.

Eleito em parte como resposta à crise, Barack Obama esteve demasiado ocupado, nos quatro anos de primeiro mandato. A maior potência econômica do mundo, posição que a cada ano parece mais ameçada, não pôde ou não quis atender as recomendações do CFR, que funciona como uma espécie de laboratório de ideias para o Departamento de Estado. Diferente modelos americano e chinês, assim como das raízes plantadas pela Europa colonial, a política africana da diplomacia brasileira se apresenta como espécie de “quarta via”, com pretensão de conjugar desenvolvimento e inclusão, sem gerar laços de dependência. Desde Lula, o discurso dos governos petistas tem sido o de resgatar uma “dívida histórica”, em primeiro lugar, reconhecendo na prática o aporte (forçado) da mão de obra escrava africana na construção da economia brasileira. Substância moral com tempero cultural, a receita já rendeu dividendos expressivos, como a decisiva adesão dos 54 votos da África à candidatura vitoriosa do ex-ministro José Graziano à direção da FAO. Essa combinação ambiciosa de solidariedade e interesses próprios estará presente em mais um seminário internacional que Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome promove em Brasília, de segunda a quinta-feira. Como nas edições anteriores, o tema serão as políticas e programas sociais que o país “exporta”. Além de Angola, terão representantes mais três países africanos (Nigéria, Níger e Guiné), além dos vizinhos Colômbia e Peru, da Jamaica e de cinco asiáticos: Indonésia, Paquistão, Vietnã, Sri Lanka e Azerbaijão. Como tem se tornado a regra, foram chineses que enxergaram a vastidão das oportunidades abertas no continente.

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Consultor Internacional

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